Antes de tudo: pH 7,2 não diz se a água é dura
A frase que abre esta página veio de um aquarista de verdade: "a água da minha cidade é 7,2, então vou montar um aquário de peixes alcalinos". A intenção é boa e a conclusão está errada — e o erro custa caro na direção contrária do que ele imagina.
pH 7,2 é praticamente neutro. A escala vai de 0 a 14 e o neutro é 7,0 (a 25 °C); 7,2 está a dois décimos disso. E o pH sozinho não diz se a água é dura: são três medidas diferentes. O pH diz se a água está ácida ou alcalina agora. O GH (dureza geral) diz quanto cálcio e magnésio ela tem — é ele que se chama «dureza». O KH (alcalinidade) diz quanto ela resiste a mudar de pH. Água «dura e alcalina», no sentido do aquarismo, é GH e KH altos, que é o que faz o pH ficar acima de 7,8 sem ajuda — não um teste que marca um pouco acima de 7.
Então esta página serve a duas pessoas diferentes, e é honesto dizer qual é você logo no começo:
- Sua água fica entre 6,8 e 7,6 depois do descanso — o pH está na faixa mais versátil que existe, e não há nada a corrigir nele. Mas meça o GH e o KH antes de escolher os peixes: com pH perto do neutro a água pode ser mole ou dura, e é o GH que separa um aquário de tetra de um de vivíparo. A página de pH, KH e GH explica cada teste; o resto desta página serve a quem der GH e KH altos.
- Sua água fica acima de 7,8, com GH e KH altos, e volta sozinha para lá depois da TPA — aí sim você tem água dura, e o resto desta página é para você. A boa notícia é que ter água dura de verdade não é um problema a corrigir: é um aquário a escolher.
Repare na segunda condição: voltar sozinha. Água que marca 8,0 na torneira e cai para 7,3 em dois dias no aquário não tem KH para segurar o pH: o que o aquário produz de ácido e de CO₂ o derruba. O caminho oposto também existe — água de poço rica em CO₂ sai ácida da torneira e sobe quando o gás escapa. Por isso o pH que vale é o medido depois de 24 horas de descanso com aeração, e ele vale junto com o GH e o KH.
Quem realmente vive bem em água dura — e são duas famílias, não uma
A resposta que circula é "água alcalina é aquário de ciclídeo africano". Fomos contar no nosso próprio catálogo, e essa resposta está errada pela metade. Das 745 espécies de água doce que mantemos com faixa de pH publicada, 127 pedem água alcalina — piso de pH a partir de 7,0 e teto em 8,0 ou mais; o catálogo conta pelo pH, e é a dureza da água de origem delas que sustenta esse pH. A maior parte se divide em dois mundos que não se misturam:
| família | quantas | como é o aquário |
|---|---|---|
| Ciclídeos do rift africano (Malawi e Tanganica, e dois bagres Synodontis do Tanganica) | 66 | Aquário dedicado: pilha de rocha, muita toca, quase sem planta, peixes territoriais e vistosos. Não aceita companhia de fora. |
| Vivíparos e arco-íris | 21 | Aquário comunitário: pacífico, barato, colorido, de iniciante. Convivem entre si e com muita coisa neutra. |
| Invertebrados (caramujos, camarões, lagostins) | 16 | Acompanham os dois, e a água dura é vantagem para eles — concha e carapaça são feitas de cálcio. |
| Outros grupos (ciclídeos da América Central, gobies de rio, peixes-arroz, kinguio, carpa e alguns avulsos) | 24 | Não formam um aquário só: cada um tem o seu, e a ficha da espécie diz qual. |
É a segunda família que ninguém conta para quem tem água dura, e ela é justamente a mais fácil. Guppy (7,0–8,0), platy e platy variatus (7,0–8,2), espada (7,0–8,2), guaru ou barrigudinho (7,0–8,2), lebiste-endler (7,0–8,5), molinésia (7,5–8,5), molinésia velifera (7,0–8,5), o vivíparo-anão Heterandria formosa (7,0–8,0) e o Phalloceros (7,0–8,0), que é de água fria; do lado dos arco-íris, boesemani (7,0–8,0), arco-íris-azul (7,0–9,0), arco-íris maçã, peixe-abelhinha e Pseudomugil furcatus. E o kinguio (7,0–8,0), que é de água fria e pede aquário próprio pelo porte, mas gosta da mesma água. Fora das duas famílias e dos invertebrados sobram 24, de grupos variados: ciclídeos grandes de fora do rift, como o synspilum e a mexerica, gobies de rio, peixes-arroz, a carpa, que é de lago, e alguns avulsos.
E um número para calibrar a angústia: 229 das 745 espécies toleram pH 8,0. Você não está limitado a 127 — está limitado a 127 se quiser que elas prosperem ali, e a 227 se aceitar que algumas apenas se viram bem. A diferença entre "prefere" e "aguenta" volta no fim da página, e ela importa.
Como manter a água alcalina sem produto — e o teto que ninguém avisa
Esta é a pergunta certa, e ela tem resposta boa: manter é fácil; escolher o número é impossível.
O caminho sem produto é colocar dentro do aquário um material de carbonato de cálcio e deixar a água dissolver o que precisar: rocha calcária, aragonita, coral triturado (no substrato ou dentro do filtro), conchas. É o mesmo princípio que a aquicultura usa em viveiro há décadas, com calcário agrícola.
Traduzindo para o aquário: coral triturado no filtro é seguro justamente porque é burro. Ele sobe a água até onde a química deixa e para. Não existe dose errada capaz de estourar o pH, o que é o oposto de todo produto de vidro que a prateleira vende.
E há um material que você não deve usar, e isso está publicado: cal virgem (CaO) e cal hidratada (Ca(OH)₂). A mesma fonte é explícita — "it is not advisable to use quick lime (CaO) or slaked lime (Ca(OH)2)… can cause pH to rise rapidly to levels that can harm aquatic life". Não é lentidão nem preço: é que elas sobem o pH depressa demais para o peixe acompanhar.
Os alvos, também da literatura de aquicultura: alcalinidade de 50 mg/L ou mais como CaCO₃ é o desejável, e a faixa boa de dureza total é 75 a 250 mg/L, com mínimo de 20. Abaixo de 20 mg/L de alcalinidade, "pH and productivity are usually reduced" — e é o assunto da página irmã, sobre água mole.
O cuidado que quase ninguém sabe que tem de ter: a amônia fica muito mais tóxica
Se você levar uma única coisa desta página, leve esta. Em pH alto, a mesma amônia envenena muito mais.
A amônia existe na água de duas formas. A ionizada (NH₄⁺) é relativamente inofensiva; a não ionizada (NH₃) é a tóxica, e a proporção entre as duas depende do pH e da temperatura. O texto da University of Florida é direto: "the portion of un-ionized ammonia increases with increasing pH and/or temperature", e o limiar de dano é "anytime the UIA is higher than 0.05 mg/L, damage to fish tissues can occur".
Aplicando a fórmula a 26 °C — a mesma que roda na nossa calculadora de amônia tóxica:
| pH | fração tóxica | 1 mg/L de amônia total vira | dano começa com |
|---|---|---|---|
| 7,0 | 0,6% | 0,006 mg/L | 8,3 mg/L de amônia total |
| 7,2 | 1,0% | 0,010 mg/L | 5,2 mg/L |
| 7,5 | 1,9% | 0,019 mg/L | 2,6 mg/L |
| 8,0 | 5,7% | 0,057 mg/L | 0,9 mg/L |
| 8,2 | 8,8% | 0,088 mg/L | 0,6 mg/L |
| 8,5 | 16,1% | 0,161 mg/L | 0,3 mg/L |
Leia a linha do 8,0 de novo. Um único miligrama por litro de amônia total — número que muita gente vê num pico de ciclagem e considera "baixinho" — já passa do limiar de dano em pH 8,0, e não chega perto dele em pH 7,2. O teste é o mesmo, o frasco é o mesmo, a cor é a mesma. O que mudou foi a água.
O que isso obriga, na prática, e são três coisas concretas:
- Cicle com mais paciência. O pico de amônia de um aquário novo é perigoso em água dura numa concentração que seria banal em água neutra. Nada de peixe antes de amônia e nitrito zerados, sem exceção de "só um pra testar".
- Trate qualquer leitura de amônia como emergência, não como "está começando". Em pH 8,2, 0,6 mg/L já é dano.
- Cuidado dobrado com a TPA grande de resgate. Se a água nova for mais alcalina que a do aquário, você sobe o pH e a fração tóxica ao mesmo tempo — a amônia que estava lá fica mais venenosa no instante em que você tentou diluí-la.
Planta em água dura: aqui a notícia é ruim, e é medida
Esta é a pergunta que o aquarista fez por último e que tem a resposta mais dura. Contamos as 305 plantas do nosso catálogo pela faixa de pH publicada de cada uma:
| pH da água | plantas que servem | peixes que servem |
|---|---|---|
| 6,0 | 294 | 502 |
| 7,0 | 298 | 618 |
| 7,5 | 202 | 448 |
| 8,0 | 104 | 228 |
| 8,2 | 5 | 97 |
A planta desiste antes do peixe. Em pH 8,0 ainda há 229 peixes e só 104 plantas; em 8,2 restam 98 peixes e cinco plantas do nosso acervo: a Heteranthera dubia e o Potamogeton perfoliatus, de água fresca, a Bacopa monnieri 'Compact', a Anubias afzelii e o Samolus valerandi, que na natureza vive até em água salobra. Se o seu plano era um aquário plantado exuberante em água dura de verdade, o plano precisa mudar — não por gosto, por química.
E há um mecanismo por trás disso que explica a crosta branca que aparece nas folhas. Em água de alta alcalinidade, a planta que consome CO₂ acaba puxando bicarbonato, e o cálcio precipita ali mesmo: como descreve Claude Boyd, a fotossíntese remove CO₂ e bicarbonato e o carbonato de cálcio se precipita, voltando a dissolver à noite quando o CO₂ se acumula. A folha vira depósito de calcário, e a planta se sombreia sozinha.
Pedra e tronco: o que muda e o que não muda
Já que o material dentro do aquário é a alavanca, vale saber o que cada um faz — e o detalhe completo, com o teste do vinagre e os falsos negativos dele, está no guia de rocha e tronco.
- Rocha calcária (seiryu, calcário, aragonita, coral, concha) — sobe e segura, com o teto de 8,3 da seção anterior. É a sua ferramenta.
- Rocha inerte (basalto, seixo, dragon stone silicosa, ardósia) — não mexe. É o que usar se você quer paisagem sem mexer na água.
- Tronco — libera tanino e acidifica de leve, e em água dura isso é quase irrelevante: o tampão da sua água ganha do tanino sem esforço. Ponha tronco por causa da estética e do biofilme, não esperando que ele derrube o pH. Quem tem água dura e sonha com água ácida está no problema da página irmã, e a resposta lá também não é tronco.
O que não fazer — vale para você mesmo com água neutra
- Não persiga o número. Estabilidade vence pH "certo" com folga: um aquário estável em 8,0 é melhor que um oscilando entre 7,2 e 7,8 porque alguém está corrigindo.
- Não misture as duas famílias. Ciclídeo do rift com guppy é comida, não comunidade — mesma água, aquários diferentes.
- Não compre "peixe de água ácida" achando que aclimata. Vive, mas não reproduz e não dura; e a ficha de cada espécie no site diz a faixa dela.
- Não use cal virgem nem cal hidratada, pelo motivo publicado lá em cima.
- Meça alcalinidade (KH), não só pH. O pH é o sintoma; o KH é a causa, e é ele que diz se a sua água vai ficar onde está.
Uma ressalva honesta sobre os nossos números
As contagens desta página vêm das fichas do próprio aquacalc, e a faixa de pH que registramos é a faixa preferida de cada espécie — a que a fonte publica como ideal de manutenção —, não a faixa máxima de sobrevivência. A largura mediana das nossas faixas é de 1,5 ponto de pH.
Isso significa que quando dizemos "104 plantas servem em pH 8,0", estamos dizendo 104 plantas que a literatura coloca ali como faixa boa. Outras podem sobreviver e ir mal. É de propósito, e é o lado conservador do erro — mas você merece saber qual pergunta o número responde.
De onde vêm os números desta página
- Autolimitação do calcário em pH 8,3, os alvos de alcalinidade (50 mg/L) e dureza (75 a 250, mínimo 20), e o alerta contra cal virgem e cal hidratada — SRAC Publication No. 4100: Liming Ponds for Aquaculture.
- A fração não ionizada da amônia por pH e temperatura e o limiar de 0,05 mg/L — FA16/FA031: Ammonia in Aquatic Systems, University of Florida IFAS Extension. A tabela desta página foi calculada a 26 °C com a mesma fórmula da nossa calculadora.
- A faixa de pH 6,5 a 9,0 como ótima e a instabilidade de água de baixa alcalinidade — pH and Alkalinity, Mississippi State University Extension.
- A precipitação de carbonato de cálcio pela fotossíntese e a redissolução noturna — Claude E. Boyd, What causes alkalinity changes in aquaculture waters?, Global Seafood Alliance.
- As contagens de espécies e plantas por faixa de pH são medição do acervo do próprio aquacalc, refeita em 25 de setembro de 2026 sobre as 745 fichas de água doce e em 30 de setembro sobre as 300 de planta, todas com faixa publicada.
Leve este guia com vocêBaixe o PDF para consultar offline, imprimir ou levar até a loja. É gratuito — pedimos só um cadastro rápido.
